Dos Mais Velhos - 22/02/2010
Eu sou do tempo em que a gente crescia ouvindo que devíamos respeitar os mais velhos. Eu chamava até as primas de minha mãe de ”tia” e “senhora”. Os “mais velhos” sempre tinham razão, por motivos aparentemente insondáveis. Os mais velhos tudo sabiam e sua quilometragem na vida dava, automaticamente, um sentido de certeza absoluta aos seus comandos e vaticínios.
Mas eu também fui ensinada a pensar e questionar, então, num determinado momento, acho que minha cabeça de criança atribuiu uma sabedoria implícita — embora inexplicável — às atitudes dos mais velhos, até porque me diziam que quando eu crescesse (no início) ou ficasse mais velha (depois que minha estatura começou a aumentar muito rápido) eu iria entender.
Assim, acabei por atribuir, muitas e muitas vezes, quase uma visão profética às atitudes dos mais velhos que, naquele momento da minha vida, não faziam o menor sentido lógico ou, de fato, demonstravam apenas mesquinhez, orgulho, vaidade e ciúme. Não me parecia possível que aquele mais velho, com tantos anos vividos, não tivesse aprendido algo, não tivesse a percepção da realidade, não tivesse humildade para admitir que não sabia, que estava inseguro e com medo. Então, aquela atitude, naquele momento, seria explicada para mim, num futuro, quando as conseqüências daquele ato, aparentemente vil, apareceriam, como flores perfumadas.
Acontece que o tempo passa, por óbvio, para todo mundo e, inclusive, para mim. Então fiquei eu esperando que a afamada sabedoria implícita dos “mais velhos”, tão decantada em minha infância, também caísse como um manto sobre os meus ombros. Por certo não fiquei sentada esperando isso e, como a vida ia passando, fui tratando de aprender o que podia, e repetindo lições quando falhava, até aprender alguma coisa.
Mas aquele instinto da certeza absoluta que era atribuído aos “mais velhos” nunca me apareceu: eu continuo me sentindo insegura, triste e carente, às vezes. Continuo tendo que ultrapassar meus limites, meus medos, meus preconceitos. Continuo tendo que vigiar minha vaidade, meu orgulho, meu egoísmo. Tenho que botar meu gênio sob rédeas curtas, meus amigos, porque o passar do tempo me deixou mais paciente para algumas coisas, mas muito mais impaciente para outras. Minha ansiedade ainda é descarregada no meu vício — eu adoro — de fumar.
Conseqüentemente, agora que eu estou quaaaaaaaaase também uma “mais velha” (o meio século bate à porta), digo aqui para vocês baixinho que perdi o respeito pelos mais velhos. Não sei se porque os acho quaaaaaaaaaase meus iguais — e se têm 20 ou trinta anos mais do que eu e ainda não se consertaram... sinto muito — ou se porque cansei de esperar que as flores perfumadas aparecessem.
Enfim: o manto de sabedoria ainda não aquece meus ombros, mas talvez os óculos de leitura tenham me feito enxergar melhor as coisas...
Autor: Monica Bonfim
Ressacada da crônica - 04/01/2010
Esta crônica não quer falar de saudade do ano que passou porque ainda é cedo para sentir saudade de um ano que não foi tão bom assim. Nem falar das festas e tragédias do réveillon porque todo mundo já sabe e não acha graça nenhuma. Nas festas porque já acabaram. E nas tragédias porque todo ano se repetem e nunca tiveram graça mesmo.
Também não quer falar do futuro, com previsões genéricas como as que sempre ouve, que não chegam a pessimistas nem deixam de ser otimistas, muito pelo contrário, o que acontece foi previsto por todos os videntes por mais antagônicos que possam parecer à primeira vista.
Uma primeira crônica do ano acha que não deve tratar de planos e promessas, que essa falação só serve pra relaxar a vontade e substituir as atitudes. Uma pessoa enjoa da promessa antes mesmo de começar a cumpri-la, de tanto que se fala em determinação, foco, honestidade consigo mesmo e outras chatices que só servem para os outros.
Ela não aguenta mais falar em corrupção e simpatia, seja com arruda atrás da orelha ou com cédulas impudicas nas partes pudendas e atrás dos panos. Rejeita falar de amores, trocada que foi por poemas e textos melosos muito comuns no final do ano.
Não vai falar do tempo porque todo mundo sabe que faz calor e chove e faz sol todos os dias. Não quer nada com política, que este ano tem eleição e todo mundo já vai falar muito mesmo e ninguém quer saber o que pensa uma pobre crônica. O mesmo se diga do futebol porque, se choram cariocas, paulistas ou argentinos, não faz a menor diferença para ela.
Não quer falar de escolas porque, de férias, ninguém quer ser lembrado disso. Do carnaval não sabe nada, não aprendeu um único samba-enredo e ainda não se recuperou de outras festas. Recusa-se a cuidar de medos, que essa sensibilidade toda diante de nada está mais pra frescura pessoal do autor.
Revoltada, repeliu até a metacrônica, dizendo que não há graça nenhuma em falar de si mesma quando só quer ficar quietinha no seu canto.
A crônica está de ressaca. Qualquer desses assuntos serviria ao autor, mas ela se recusa. Amotinou-se. E não há nada que um cronista banana possa fazer, a não ser se lamentar com vocês.
Ousada, inconveniente e insubordinada é a minha crônica. Preciso resolver questões internas de disciplina. Por hoje, eu passo. Tenho certeza de que outros saberão dizer a suas crônicas quem é que manda.
E antes que ela me reprima o lugar comum: feliz ano novo!
Autor: Albir José da Silva
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